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Relato de Oliver Cowdery sobre a história da Igreja

Do jornal Latter Day Saints' Messenger and Advocate (Mensageiro e Advogado dos Santos dos Últimos Dias) volumes 1-2



Nota de Introdução: As oito cartas desta série, escritas por Oliver Cowdery, foram enviadas a W.W. Phelps, editor do jornal Latter Day Saints’ Messenger and Advocate (MA--Mensageiro e Advogado dos Santos dos Últimos Dias) publicado em Kirtland, Estado de Ohio. Escreveram-se as cartas com o propósito de proporcionar a “plena história do surgimento da Igreja dos Santos dos Últimos Dias e dos fatos mais interessantes de seu progresso até o presente momento”(MA outubro de 1834, volume 1, número 1, página 13).
Joseph Smith intercala sua própria carta endereçada a Oliver Cowdery e publicada no mesmo número da Carta III. Nessa carta, o Profeta explica que embora “eu tenha me sujeitado a muitos vícios e fraquezas, não sou, nem se pode alegar, na verdade, que sou culpado nem de injustiça, nem de injúria contra qualquer ser o grupo de seres” (Carta de Joseph Smith, MA, dezembro de 1834, Vol. 1, no. 3, p. 40). Um dos temas das cartas parece ser o caráter de Joseph Smith, e sua carta responde, em grande parte às críticas.
Extratos desta série também foram republicados no jornal Times and Seasons (Tempos e Estações) a partir da edição de primeiro de novembro de 1840 até a publicação da Carta VIII na edição de primeiro de maio de 1841. A série de cartas mais tarde foi publicada em Salt Lake City, Estado de Utah, nas revistas mensais da Improvement Era de janeiro a agosto de 1899.

 

Carta I

Data: Outubro de 1834

Local: Kirtland, Estado de Ohio

Fonte: “Vol. 1 October, 1834 No. 1,” no MA, vol. 1, p. 13-16

Publicada: Times and Seasons 1º de novembro de 1840, Vol. 2, no. 1, p. 200-202; Improvement Era, janeiro de 1899, Vol. 2, no. 3

Assunto: Oliver se encontra com Joseph em abril de 1829 e começa a servir de escrivão do Livro de Mórmon. Surgem-lhes dúvidas sobre a autoridade de batizar, e recebem "uma visão do Todo-Poderoso" que inclui a voz do Senhor e a aparição de um anjo que lhes confere o sacerdócio para que os levitas possam tornar a fazer ofertas.

 

 

Messenger and Advocate, September 7, 1834


Messenger and Advocate, September 7, 1834

 

 

Texto:

A seguinte comunicação foi destinada a publicar-se no último número do Star; mas devido à urgência de outros assuntos, ficou para este número do Mensageiro e Advogado. Depois de escrevê-la, ao refletir mais, pensei que fazer um relato mais completo do surgimento da Igreja dos Santos dos Últimos Dias e das partes mais interessantes de seu progresso até o presente momento, seria digno da leitura dos Santos dos Últimos Dias.—Se as circunstâncias permitirem, uma carta a respeito deste assunto aparecerá em todos os números seguintes do Mensageiro e Advogado, relatando a história até a expulsão da Igreja do Condado de Jackson, Estado de Missouri, por bandidos sem lei, e outros comentários que sejam apropriados e interessantes.

A fim de que nosso relato seja correto, principalmente a sua introdução, convém informá-los que nosso irmão J. [Joseph] SMITH Jr. concordou em ajudar-nos. De fato, há muitos detalhes relacionados ao início da história que tornam sua colaboração indispensável. Com o trabalho dele e os documentos autenticados de que temos posse, esperamos fazer uma narração agradável, digna da investigação e leitura dos Santos.—Para fazer jus ao assunto, requererei tempo e espaço; portanto, pedimos paciência aos leitores, assegurando-lhes que este relato será baseado nos fatos.

Norton, Condado de Medina, Estado de Ohio, domingo à noite, 7 de setembro de 1834.

Caro irmão,--

Antes de sair de casa, prometi escrever-lhe, e já que me restam alguns momentos para meditar sem as preocupações e as conversações com os amigos neste local, pensei em comunicar-lhe algumas coisas que se não lhe viessem a ser especialmente benéficas em confirmar sua fé no evangelho, pelo menos pudessem interessar-los, visto que agradou ao Pai celestial nos chamar para regozijarmo-nos na mesma esperança da vida eterna. E por proferi-las publicamente, alguns milhares de pessoas que já abraçaram o mesmo convênio aprenderão algo mais específico sobre o surgimento desta Igrjea nesta última dispensação. E enquanto a cinzenta tarde logo escurecer, meu coração se unirá às milhões de pessoas felizes que já estão na presença do Cordeiro, não podendo mais ser tentados, mas dando louvores ao mesmo Pai.

Mais um dia já passou para aquele oceano sem limites, a eternidade! Aonde quase seis mil anos já passaram, e o que nos passa pela mente como uma faísca de eltricidade é o fato destes dias não voltarem mais! Se este tempo foi bem aproveitado ou não, se os princípios irradiando daquele que o santificou foram observados ou não, ou, se o total do tempo foi desperdiçado, não é para eu dizer, mas uma coisa que posso dizer é que este tempo nunca mais voltará! Passou e passará a encher o grande espaço decretado pelo Autor, até que a Natureza cesse seu trabalho, e o Tempo seus ciclos costumários—quando o Senhor tiver completado a coligação dos eleitos para gozar junto deles aquele Sábado que não findará!

Na sexta-feira, dia 5, saí de Kirtland para este local (New Portage) acompanhado de nosso irmão Joseph Smith Jr. para assistir à conferência previamente programada. Ser permitido viajar mais uma vez com este irmão me inspira pensamentos extraordinários. São muitas as fadigas e privações que tive que sofrer junto com este irmão desde 1828 [1829], pelo amor do evangelho. Nosso caminho esteve muitas vezes cheio de armadilhas e fomos procurados por homens ferozes e enraivecidos ao ponto de quererem derramar sangue inocente, ou por si mesmos ou pelas insinuações daqueles que se chamavam "guias" ao reino da glória! Este, confesso, é um retrato muito sombrio para apresentar aos leitores, mas me perdoarão a franqueza quando eu lhes revelar de forma indiscutível a verdade de tudo isoo. De fato, Deus assim ordenou para que as observações relativas ao meu passado e ao conhecimento do caminho da salvação que me foram permitidas expor, sejam ainda mais preciosas. Pela graça de Deus, não só fui preservado de homens iníquos e crueis, junto deste nosso irmão, mas também sou testemunha dos frutos da perseverança em proclamar o evangelho sempiterno, após sua declaração nestes últimos dias, o qual  nunca esquecerei enquanto os céus me derem vida. E o que torna esta reflexão indescritível é o fato de eu receber o batismo por sua mão [a de Joseph Smith], conforme ordenado pelo anjo de Deus—o primeiro a entrar para esta Igreja naquele dia.

Quase na hora do pôr do sol, na tardinha de domingo, dia 5 de abril de 1829, meus olhos, pela primeira vez, fitaram este irmão. Ele residia na época em Harmony, Condado de Susquehanna, Estado da Pensilvânia. Na segunda, dia 6, ajudei-o a resolver uns assuntos de natureza temporal, e na terça-feira, dia 7, comecei a escrever o Livro de Mórmon. Eram dias inesquecíveis—poder sentar e escutar o som de uma voz ditada pela inspiração celestial, acordou em mim a mais completa gratidão! Continuei, dia após dia, sem interrupção, a escrever as palavras que saíam de sua boca, ao passo que ele traduzia com o auxílio do Urim e Tumim, ou como diziam os nefitas, "os interpretes," o registro chamado "O Livro de Mórmon."

Para contar, até de forma resumida, o relato de Mórmon e seu filho fiel, Moroni, de um povo amado e favorecido do céu, não é o propósito deste trabalho. Deixá-lo-ei para o futuro, e logo passarei a tratar, como disse na introdução, de alguns acontecimentos mais diretamente vinculados ao surgimento da Igreja que possam ser de agrado aos milhares que avante foram em meio da reprovação de intolerantes e da calúnia de hipócritas, e abraçaram o evangelho de Cristo.

Nenhum homem sóbrio poderia examinar e estudar as instruções dadas aos nefitas pela boca do Salvador acerca de como se deveria edificar a sua igreja (já que a corrupção havia atingido todas as formas e sistemas de religião praticados pelos homens) sem desejar o privilégio de mostrar sua sinceridade do coração por meio de batizar-se em "boa consciência pela ressurreição de Jesus Cristo."

Depois de escrever o relato do ministério do Salvador entre a remanescente da decendência de Jacó neste continente, tornou-se fácil ver, como falou o profeta, que a escuridão cobria o mundo e escuridão grossa a mente do povo. Ao refletir mais, ficou igualmente fácil perceber que em meio da grande contenda e barulho concernentes à religião, ninguém possuia a autoridade de Deus para administrar as ordenanças do evangelho. Pois, pode-se perguntar se terão autoridade de ministrar em nome de Cristo aqueles que negam a revelação, visto que o testemunho não é nada menos que o espírito da profecia, e a religião é baseada, edificada e apoiada pela revelação imediata em todas as idades do mundo em que havia um povo de Deus na terra? Se estes fatos estavam enterrados e cuidadosamente escondidos pelos homens cuja profissão estaria em perigo, se estas verdades fossem reveladas aos homens, não estavam mais ocultas a nós, e só aguardávamos o mandamento, "Levantai e sede batizados."

Não se esperaria muito até que este desejo fosse cumprido. O Senhor, que abunda em misericórdia e está sempre disposto a responder à oração consistente dos humildes, concordou em manifestar sua vontade depois que havíamos orado fervorosamente. De repente, como se do meio da eternidade, a voz do Redentor nos falou palavras de paz, enquanto o véu se abriu e o anjo de Deus desceu vestido de glória, e entregou-nos a muito esperada mensagem bem como as chaves do evangelho de arrependimento! Que felicidade! Que maravilha! Que assombro! Enquanto o mundo estava sofrido e destraído, enquanto milhões tateavam como um cego procurando um muro, e enquanto todos os homens estavam na incerteza, como um todo, nossos olhos viram —nossos ouvidos escutaram. Como o alvorecer do dia; sim, mais—acima do brilho dos raios do sol em maio que espalham seu esplendor sobre a face da natureza! E logo, sua voz, embora amena, nos penetrou até o coração, e suas palavras, "Sou vosso conservo," afastaram todo o medo. Escutamos—olhamos fixadamente—admiramos! Foi a voz do anjo da glória—foi a mensagem do Altíssimo! E ao ouvirmos, regozijamo-nos, enquanto isso, seu amor ardia na alma e estávamos mergulhados na visão do Todo-Poderoso! Que havia de duvidar? Nada! A incerteza fugiu, a dúvida desapareceu para não mais voltar, ao passo que a ficção e decepção haviam afastado para sempre!

Todavia, meu querido irmão, pense, pense mais um momento, que regozijo que nos encheu o coração e com que surpresa teríamos nós nos ajoelhado, (pois, quem não teria se ajoelhado para receber tal bênção?) quando recebemos de sua mão o santo sacerdócio, enquanto ele dizia, "sobre vós, meus conservos, em nome do Messias confiro este sacerdócio e esta autoridade, os quais permanecerão na terra para que os filhos de Levi ainda possam fazer uma oferta ao Senhor em retidão!"

Não tentarei retratar-lhes nem os sentimentos do meu coração, nem a beleza majestosa e glória que nos rodeavam nesta ocasião; mas hão de acreditar-me quando digo que nem a terra, nem os homens com a eloqüência dos anos podem chegar perto de proferir uma linguagem tão interessante e sublime como este personagem santo. Não; nem o mundo tem o poder de proporcionar a felicidade, conceder a paz, nem compreender a sabedoria contida em cada oração que nos foi oferecida pelo poder do Espírito Santo! Um homem pode enganar outro homem; pode haver engano após engano, e os filhos dos iníquos podem ter o poder de seduzir os tolos e incultos até que nada senão ficção alimente a massa, e o efeito da mentira leve na sua correnteza os ingênuos ao sepulcro; contudo, um contato pela mão de seu amor, sim, um raio da glória celestial, uma palavra da boca do Salvador provindo do seio da eternidade torna tudo isso insignificante, e apaga-o da nossa memória para sempre! A certeza de que estávamos na presença de um anjo, a segurança de que ouvimos a voz de Cristo, e a verdade pristina que procedia de um personagem puro, ditada pela vontade de Deus, é para mim algo que desafia qualquer descrição, e sempre hei de encarar esta expressão da bondade do Salvador com assombro e gratidão, enquanto eu viver, e depois naquela mansão onde habita a perfeição e o pecado nunca entra—sim, espero adorá-lo naquele DIA que jamais cessará!*

Hoje neste local os membros da Igreja se reuniram e ouviram um discurso do irmão Jared Carter sobre o importante assunto da salvação, e depois pelo irmão Sidney Rigdon. As verdades animadoras aboradas por estes irmãos de forma tão hábil e eloqüente são “maçãs de ouro em cesta de prata.” Os santos prestaram bastante atenção, e depois, ao partir o pão, oferecemos mais uma oblação ao Senhor em sinal da nossa devoção.

Devo encerrar por aqui: a vela já está-se apagando, e toda a natureza parece suspensa no silêncio, envolta pela escuridão, gozando do repouso tão necessário nesta vida. Mas eis que o tempo está por vir quando a noite acabará, e aqueles que forem dignos, herdarão a cidade onde nem a luz do sol nem a da lua serão necessárias! “pois a Gloria de Deus iluminá-la-á, e o Cordeiro será a luz da mesma.”

O.COWDERY.

Para: Dom W.W. PHELPS,

            P.S. Logo tornarei a escever mais sobre a conferência. O.C. (Oliver Cowdery)

*Daqui em diante relatarei a história completa do surgimento desta igreja, até o tempo mencionado na introdução, que de necessidade abrangerá a vida e caráter deste irmão. Portanto, deixarei de relatar a história do batismo até o devido tempo.

Carta II

Data: Novembro de 1834

Local: Kirtland, Ohio

Fonte: MA, vol. 1, no. 2,  p. 27-32

Publicada: Times and Seasons, 15 de novembro de 1840, Vol. 2, no. 2, p. 209-213; Improvement Era, fevereiro de 1899, Vol. 2, no. 4, p. 265-74

Assunto: A apostasia que seguiu a morte dos antigos apóstolos e a tendência universal de rejeitar os professores da verdade contemporâneos devido a suas imperfeições (reais ou imaginadas) e à resistência do povo ao arrependimento.

Texto:

Ao Dom W. W. Phelps

querido irmão:

No último número do Messenger and Advocate (Mensageiro e Advogado) prometi iniciar um relato mais minucioso da história do surgimento e progresso da Igreja dos Santos dos Últimos Dias e publicá-la para o benefício dos pesquisadores e todos aqueles que estão dispostos a aprender. Há certos fatos relativos às obras de Deus que são dignos da consideração e observação de todos os indivíduos e todas as sociedades, a saber: Ele nunca atua nas trevas. Suas obras são sempre executadas de maneira clara e inteligível. Outro ponto: Ele nunca trabalha em vão. Não é o caso dos homens, mas não poderá ser? Quando o Senhor executa uma obra, realiza seus objetivos, e revelam-se os efeitos depois. Levando isto em conta, permita-me fazer alguns comentários de introdução. As obras dos homens podem brilhar por uma temporada, mas o próprio tempo altera a sua face e reduz a sua duração; pois não há nada que possa resistir a consumição da corrupção a não ser aquilo que foi erguido pela mão daquele que nunca enfraquece.

Não me será necessário embelezar e enfeitar esta narração com o relato da fé de Enoque  e aqueles que o ajudaram a edificar Sião, o qual fugiu para estar com Deus nas montanhas, de onde Ele lhes concedeu a bênção da vida eterna. Estes ficarão de reserva para mais tarde unirem seu raio de glória ao grão cortejo, quando os mundos forem abalados de seus alicerces até o âmago, as nações dos justos se levantarem do pó, e milhões de benditos da Igreja do Primogênitoto saudarem sua vinda triunfal. Ele então receberá seu reino, sobre o qual reinará até que todos os inimigos sejam subjugados.

Não escreverei a história da igreja do Senhor que foi estabelecida conforme as instruções a Moisés e Aarão, nem das perplexidades e desânimo que sobrevieram Israel por causa de suas transgressões, nem de sua organização na terra de Canaã e sua derrota e dispersão entre as nações para colher os frutos de sua iniqüidade até o aparecimento do Grande Pastor na carne.

Mas há, por necessidade, uma uniformidade tão exata, uma maneira tão certa, e ordenanças tão minuciosas em todas as idades e gerações em que Deus estabeleceu sua igreja entre os homens, que tomarei a liberdade de me referir a estas coisas de tempos em tempos, principalmente à época do advento do Messias e do ministério dos apóstolos daquela igreja, lembrando-nos da mesma até que desapareceu da terra, foi afastada à escuridão, e Deus tomou para si o santo sacerdócio para guardá-lo até o presente século para de novo conceder este direito aos que estão nesta terra de liberdade. Muitos duvidarão deste fato, pois admiti-lo anulará todas as religiões de hoje em dia. Não é razoável eu esperar, então, que a maioria dos professores de religião se disponham a escutar meus argumentos por um instante e fazer uma investigação cuidadosa, justa e fiel das doutrinas corretas, sim, os princípios queridos, apoiados pelos membros desta igreja e por todo homem honesto que admita a verdade. Quanto a isso, digo o que Tertuliano disse ao Imperador quando defendia os santos da sua época: "Quem é que examinou bem a nossa religião que não a tenha abraçado?"

Os empreendimentos e planos dos homens poderão ser derrotados e destruídos por oposição. Os sistemas deste mundo poderão ser aniquilados por opressão e mentira, mas o caso da religião pura é do contrário. Existe um poder que acompanha a verdade, o qual todas as artimanhas e astúcias dos homens não conseguem sondar; há uma influência crescente que surge num lugar logo que se sufoca noutro, e quanto mais se vilifica, quanto mais se empregam meios severos para extingui-la, mais numerosos se tornam os adeptos. Não é o grito de "desilusão" da multidão tola; não é o desdém dos intolerantes; não é a zanga dos fanáticos, nem a ira de príncipes, reis e imperadores que podem impedir esta influência. O fato é, como disse Tertuliano, que nenhum homem jamais investigou, minuciosamente, a coerência e certidão do evangelho sem abraçá-lo. É impossível, pois a luz que ilumina a humanidade logo trará a extasia; a inteligência que existia antes da fundação do mundo nos unirá, e a sabedoria do Divino será tão evidente que será abraçada, reconhecida e seguida!

Analizem a religião pura em todas as épocas em que já esteve na terra, e sempre notarão as mesmas caraterísticas em todos os seus aspectos. Analizem a verdade (sem a qual a religião pura não poderia existir,) e observarão as mesmíssimas particularidades. Aqueles religiosos que foram guidados pela verdade, sempre mostram os mesmos princípios; e aqueles que não foram assim orientados tem procurado destruir sua influência. A religião já teve seus amigos e inimigos, seus defensores e oponentes. Mas os milênios que já passaram não conseguiram alterá-la, e os milhões que já a abraçaram, estão desfrutando a felicidade proporcionada pelos convênios, não alterando seus princípios, e a sua influência nas pessoas de coração honesto permanece forte. A oposição que enfrenta a religião, os milhões de calúnias, as críticas sem fim, e os montes de mentiras não conseguiram mudar sua formosura, nem macular sua beleza e excelência, ficando ela inteira e seus alicerces apoiados pela mão de Deus!

Quero salientar uma peculiaridade da humanidade já de início. No que se diz respeito ao meu conhecimento dos homens e sua história, o costume de cada geração tem sido o de gabar-se dos atos da geração anterior. Com relação a isso, quero deixar bem claro que me refiro aos santos, aqueles a quem Deus comunicou sua vontade. Sempre existia entre os homens uma cegueira que os impede de descobrir o valor real e a excelência de certas pessoas de sua convivência, mas quando os homens ficam destituídos de sua presença, valor e conselhos, logo se exclama, "quão grandes e inestimáveis eram suas qualidades e quão preciosa a sua memória."

Até os mais corruptos e vis não são isentos desta acusação. Até os judeus da época de Cristo, cujos princípios haviam sido corrompidos e cuja religião era hipocrasia, construíam e enfeitavam os sepulcros dos profetas, e condenavam seus pais por tê-los matado, vangloriando-se de sua própria retidão e salvação garantida. No meio de tudo isso levantaram-se com unanimidade e traíram e crucificaram de maneira pérfida e vergonhosa o Salvador do mundo! Não é de se admirar que o pesquisador tenha-se desgostado, e não se maravilhem os irmãos que Deus tenha designado um dia quando reunirá as nações perante si para compensar a todos conforme suas obras!

Enoque caminhou com Deus e foi levado ao lar celestial sem experimentar a morte. Por que todos não foram convertidos no seu tempo e levados com ele à glória? Noé, conforme dizem, era perfeito em sua geração, e é evidente que se comunicava com o Criador, e que por sua ordem levou a efeito uma obra cujo igual não se encontra nas crônicas da história do mundo! Por que o mundo não se converteu para que não houvesse o dilúvio? Os homens, desde os dias do nosso patriarca Abraão, tem comentado, louvado e bendito sua fé, ele que é representado nas escriturras como sendo “o pai dos fieis." Moisés conversou face a face com o Senhor, recebeu a grande lei moral, que se tornou a base de todos os governos civilizados, guiou Israel por quarenta anos, e foi levado, depois de tanto labutar, à casa celestial para receber seu galardão para que os descendentes de Jacó reconhecessem seu valor. Pois, não foi esta a pergunta que nosso Senhor fez, "Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?" Diz-se que Ele viajou e ensinou os princípios retos de seu reino por três anos, durante os quais escolheu doze homens e ordenou-os apóstolos, etc. As pessoas viram e ouviram, muitas das quais se beneficiaram por serem curadas de infermidades, doenças, pragas e demônios. Viram Cristo andar em cima da água, estavam presentes quando por sua ordem as águas e ventos acalmaram; viram milhares saciarem-se de poucos pães, e até os poderes do maligno tremerem na sua presença—e como muitos que os antecederam, consideravam tudo isso como se fosse um sonho, ou uma ocorrência comum, até que se cumpriu o tempo de seu infinito sacrifício. Contudo, quando o Salvador estava com eles, disse-lhes: Desejareis ver um dos dias do Filho do Homem, e não o vereis. Pois ele sabia que calamidades haveriam de vir sobre aquele povo, e a ira dos céus o atingiria para a sua destruição, e quando a cidade de Jerusalém estava cercada de exércitos, podemos muito bem concluir que desejavam que estivesse junto deles um protetor possuidor de poderes suficientes para guiá-los a um abrigo distante do tumulto do estado de sítio.

Desde a morte dos apóstolos todos os homens que acreditam na veracidade de sua missão têm louvado suas virtudes e homenageado sua fama. Parece que se esqueceu do fato deles serem pessoas de infermidades, sujeitas a todos os sentimentos, paixões e imperfeições comuns a todos os seres humanos. Mas eles, como outros que os antecederam, são considerados homens de mais perfeição, santidade e pureza do que os seus sucessores. Assim eram venerados, na época dos apóstolos de Cristo, os profetas dos tempos anteriores. Porém, haverá diferença de galardão entre aqueles que morreram pelo amor da retidão nos dias de Abel, ou de Zacarias, de João, ou dos doze apóstolos escolhidos em Jerusalém, ou desde então? Não é a vida de um tão preciosa como a do outro? E não é a verdade a mesma?

Porém, ao analizar a vida e os atos dos homens de gerações passadas, nota-se que sempre que achamos um homem justo entre eles, o povo daquela época arrumava uma desculpa para não atentá-lo nem acreditar no seu testemunho. O povo podia ver suas imperfeições, ou senão, imaginar imperfeições, e estava sempre pronto para justificar sua falta de crença no profeta. Não importava quão puros os princípios, quão preciosos os ensinamentos, desejava-se uma desculpa, e uma desculpa se achava.

Uma geração desfruta de homens tão retos como os de gerações anteriores, mas os condena, empregando os mesmíssimos argumentos com que os justos da geração anterior foram condenados, só que os da geração passada ora são louvados; mas, na realidade as doutrinas dos de uma geração são tão puras e seus esforços de levar os homens à retidão tão árduos como os de outra geração, e os atos dos profetas são igulamente louváveis. Porém, ao ver dos homens, o sepulcro dos falecidos agora é sagrado e homenageado enquanto os profetas da próxima geração são destituídos de sua própria existência na terra! Assim é a depravação e incoerência dos homens, e assim tem sido o seu conduto para com os justos ao longo dos séculos.

Quando João, o filho de Zacarias, ministrava entre os judeus, diz-se que nem comia pão nem bebia vinho. Em outra passagem consta que se alimentava de gafanhotos e de mel silvestre. Os judeus viam-no, ouviam-no pregar, e eram testemunhas da pureza de suas doutrinas, mas queriam arrumar uma desculpa, e logo acharam uma: “Está endemoninhado!"—E quem entre todas as gerações que valorizavam a salvação seguiria ou se deixaria ser ensinado por quem estava endemoninhado?

O Salvador veio em forma de homem; comia, bebia, e andava por aí como homem, e diziam: "Eis um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores!" Faltava uma desculpa, mas logo a acharam. Quem seguiria um líder dissipado? Ou, quem, entre os fariseus religiosos reconheceria um homem que se abaixasse para comer com publicanos e pecadores? Já chegou—não agüentaram mais. Para eles um homem que ensinava as doutrinas do reino do céu, e declarava que o reino estava próximo, ou já estava, devia ser “perfeito,” senão, não o receberiam. Se estava com sede, não devia beber; se fraco, não devia comer, se cansado, não devia descansar, porque havia assumido a autoridade de ensinar a retidão à humanidade, e por isso tinha que ser diferente quanto aos modos e constituição, para que todos fossem atraídos pela sua aparência notável e conquistados pelo seu comportamento único. De outra maneira era impostor, um professor falso, um homem iníquo, um pecador e cúmplice de belzebu, o príncipe dos demônios!

Se a singularidade de aparência, ou modos diferentes, atraísse o respeito, certamente João teria sido reverenciado e ouvido. O fato dele vir do deserto vestido de pêlos de camelo, não bebendo nem vinho nem bebida forte, nem alimentando-se de comida comum, deveria ter despertado a curiosidade dos curiosos ao máximo. Mas havia uma peculiaridade deste homem, comum a todos os homens justos anteriores a ele, pelo qual o povo o odiava e pelo qual perdeu a vida: Pregou a santidade, proclamou o arrependimento e batismo para a remissão dos pecados, advertiu ao povo acerca das conseqüências da iniquidade, e declarou que estava próximo o reino dos céus—o que para eles era demais! Este homem vestido de forma rude e que não se alimentava de comida comum, nem bebia vinho como os outros homens, colocou-se à frente dos fariseus letrados e venerados, dos doutores sábios e das ilustres escribas e declarou que logo apareceria o reino do Senhor. Isso não se podia admitir—ele não devia de ensinar—não podia ousar nem tentar guiar o povo. “Este está endemoninhado!"

Os judeus estavam dispostos (segundo eles) a acreditar nos antigos profetas e seguir as instruções celestiais revelados ao mundo por eles, porém, quando apareceu ao vivo quem ensinava a mesma doutrina e proclamava as mesmas coisas, não escutaram. As pessoas dizem que crerão se puderem ver, mas eu acho o contrário a este respeito—Se não puderem ver, crerão.

Há um, talvez dois motivos que explicam porque os mensageiros da verdade foram rejeitados. Ou as multidões viam as imperfeições dos profetas, ou as supostas, e daí formavam suas desculpas para rejeitá-los; ou em conseqüência da corrupção de seu próprio coração, as multidões, quando admoestadas, não estavam dispostas a se arrependerem, mas em vez disso se escandalizavam por uma palavra, ou por vestes de pêlo de camelo, ou por quem comia gafanhotos ou bebia vinho, ou fazia amizadade com os publicanos e pecadores!

Ao examinar as sagradas escrituras, parece que nos esquecemos do fato de que nos foram dadas através de homens imperfeitos, sujeitos a paixões. Há uma crença geral que os profetas antigos eram perfeitos, que nunca nenhuma mancha jamais aparecia em seu caráter enquanto viviam na terra. Pode-se dizer o mesmo em relação aos apóstolos. Notem que Tiago disse que Elias Profeta era um homem sujeito a paixões semelhantes a nós, não obstante este tinha tanta influência com Deus que em resposta a sua oração, parou de chover por um período de três anos e meio.

Não resta dúvida que aqueles a quem Tiago escreveu encaravam os profetas das gerações  anteriores como um raça superior aos da época deles, e para ser profeta o homem tinha que ser perfeito em todos os aspectos. Isto é, o profeta tinha que ser perfeito conforme a definição deles. E se tivesse profetas em seu meio, segundo a sua lógica, eles se governavam pelas leis reveladas, até na vida particular. A geração seguinte já supunha que os da anterior que acreditavam na palavra de Deus seguiam  as regras e leis transmitidas pelos mensageiros de Deus a pé da letra, como se possuíssem as chaves dos mistérios dos céus e tivessem a sabedoria dos de todas as gerações do mundo.

Como notaram, mencionei o Messias, sua missão neste mundo e seus atos e aparência; mas quero que entendam que não o coloco no mesmo nível dos homens. Sua missão foi bem mais elevada, até do que a dos profetas e apóstolos. Ao meu ver, nenhum outro teria condições de cumprir esta missão, pois foi sacrificado sem mancha a Deus para nos redimir os pecados e ressucitar de forma triumfal, vencendo o poder da morte. Tudo isso o homem não podia fazer.—Exigia-se um sacrifício perfeito—o homem é imperfeito—uma oferta sem mancha—o homem tem mácula. Tinha que ser uma expiação infinita, mas o homem e mortal!

Falei do Senhor para mostrar que as pessoas que ensinam a verdade, sejam perfeitos ou imperfeitos, são vistas como miseráveis. Até o Salvador, o grande Pastor de Israel, foi escarnecido, desprezado e comparado ao príncipe dos demônios; e os profetas e apóstolos, embora encarados na época atual como sendo perfeitos, eram considerados os mais vis da família humana pelos contemporâneos. Não devemos basear nossa opinião da dignidade de uma pessoa pelos boatos que os ventos levam de um lado ao outro. Se este for o caso, estaremos edificando altares em que sacrificar os mais perfeitos dos homens e estabelecendo critérios para que os mais vis dos vis sejam impunes.

 

Messenger and Advocate, December 1835

 

 

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